Cheiro de Luz

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Cheiro de Luz - Um mergulho nos sentidos do Fluxo A pedra de crack recebe esse nome porque no momento em que ela é queimada para o consumo, ela estala, racha, craqueleja, provocando fissuras e assim, se desfazendo, em uma sublimação de torpor e prazer. Parece que esse percurso de rachaduras e fissuras não é um…

Cheiro de Luz – Um mergulho nos sentidos do Fluxo

A pedra de crack recebe esse nome porque no momento em que ela é queimada para o consumo, ela estala, racha, craqueleja, provocando fissuras e assim, se desfazendo, em uma sublimação de torpor e prazer. Parece que esse percurso de rachaduras e fissuras não é um privilégio apenas da pedra de crack. O craquelar está incrustado nas rachaduras e fissuras dessa nossa megalópole paulistana é a chamada Cracolândia, terra das fissuras e rupturas. Claro que escondida, velada pelo manto da exclusão, mas também explícita, explicitação esta que não é apenas física, muito menos unilateral.

Não são apenas corpos em cacos e fragmentos vagando por um labirinto físico e mental de uma rua venal urbana, mas pessoas com histórias de vida, com família, percurso profissional, sentimentos, sonhos e desejos, tal qual cada um de nós. Só que no caso dessas pessoas, essas lembranças surgem e se misturam justamente através dos estalos da pedra, do brilho da chama, em uma fissura de vida, rompem com suas próprias histórias, rachando e rompendo seus percursos e até mesmo suas identidades. Impossibilitados de permanecer em suas quebradas, em suas famílias, encontram seguro e sobrevivência no fluxo.

O Cheiro do FluxoFluxo. Foi como os próprios usuários batizaram esse agrupamento de pessoas que fazem uso e abuso de drogas no centro de São Paulo. Um espaço onde pessoas derretem, sublimam e fluem. Nada mais apropriado para essa nossa sociedade líquida. Pois então, o fluxo é onde flui a vida possível, é onde se diluem os fragmentos de si, como mercúrio, um metal liquido que se espalha e se junta novamente, buscando-se encontrar. É os lócus do improvável, do inusitado, do efêmero…É onde os fragmentos de si tornam-se cacos e fumaças, derretem e se mesclam em existências diversas e misturadas, aparentemente sem faces próprias.

O Fluxo, perante o abandono e a frieza da sociedade da qual, inclusive faz parte, se enrijece, petrifica e entope as artérias que oxigenam o tecido social tido como saudável, e assim, colapsa, gangrena, apodrece. E nessa Paulicéia desvairada, cheia de pompa e circunstância, o “feio”, o “miserável”, o “doente”, o “maltrapilho”, o “drogado” e a rua devem ser escondidos, afinal, tecido morto deve ser amputado. Assim como um apêndice supurado, que por não ter serventia ao corpo, a não ser a infecção, pode ser extirpado sem danos. Simples assim.

Acontece que nem todos pensam dessa mesma maneira. Talvez até nem seja uma questão de raciocínio, muito menos de razão, mas sim de afeto, carinho, disponibilidade, presença e humanidade. Uma forma de existir coletiva e pública que torna visível o que a sociedade despreza, refuta e apaga na arena pública.

Nasci do lado de cá da ponte, com todas as oportunidades que a vida pode oferecer, mas também sempre trabalhei na área social, pois escolhi viver a cidade em sua potência total. São quase 20 anos de ruas e periferias. Educador Social na veia, de raiz, roots! É um processo longo e intenso. Aprendizado profundo e constante, uma vez que este complexo processo educativo ocorre para dentro e para fora, operando na desconstrução e construção, proteção e doação, limite e liberdade, conteúdo e forma, julgamento e neutralidade, indivíduo e coletivo, público e privado, ideologia e ideia. Talvez a essência da rua e suas zonas invisivibilizadas nasça e transborde justamente dessas dualidades, antíteses de teses que nunca foram escritas, apenas vividas e pavimentadas com muita dor, miséria e sofrimentos. A rua deixa o seu papel de trânsito e assume seu transe. Por isso que é tão difícil trabalhar e entender a rua e seus moradores, afinal, é tudo fluxo, somos o fluxo, parte dele ou corpos estranhos.

Assim como o fluxo de um rio tem suas correntes, no Fluxo da Luz tem a sua corrente, só que esta é elétrica, pulsante e alternada. Por isso o choque literal e semântico ao se entrar nesse território, que aliás, está circunscrito entre os tradicionais bairros de Campos Elísios, Brás e claro, Luz, no “epicentro” de São Paulo. Nomeado de Cracolândia como local de morte e ter como nome real Luz, e se tem luz, tem energia e sombra. No cair da noite, a luz permanece, só que agora na forma de pequenos pontos de luz, revelando uma verdadeira constelação, luzes pulsantes de isqueiros “bic”, a ascender e iluminar cachimbos e rostos.

Screen Shot 2016-08-27 at 3.41.56 PMFluxo é uma denominação muito mais legítima e com propriedade do que Cracolândia que costumamos ver nos noticiários policiais da vida e morte. Já este último nome surgiu de fora, num tom pejorativo e mordaz. O Fluxo é mais que um nome, é um lócus, um status, uma referência, uma potência e até mesmo um abrigo que acolhe. Fluxo é um termo usado também pela a cultura do funk, pois é no fluxo onde os invisíveis tomam corpo e forma, se reconhecem e se identificam, é onde vivem suas vidas possíveis, com suas músicas e padrões culturais banidos da sociedade culta e hegemônica. É um grito coletivo de existência e porque não, resistência. É um pertencimento e ocupação. Apenas quem realmente conhece o Fluxo poderia denomina-lo assim. “Só quem é da família pode falar do Fluxo”, é uma frase local mais que recorrente. Não é à toa que as pessoas ali se tratam como pai e mãe, muito embora a presença masculina seja maior; “Oi pai, tem uma moeda aí? ”, “ Aê pai, posso pegar uma água? ”. É uma forma de tratamento que já tive contato anteriormente trabalhando com crianças e adolescentes de rua no centro. Todas elas praticamente abordam os transeuntes na rua como “tio” e “tia”, os corpos estranhos. É uma forma de devolver o tratamento pasteurizado que recebem de uma sociedade apressada e distante. Portanto, se eles são “meninos e meninas de rua”, ou “moleques”, ou “trombadinhas”, dentre outros chamamentos, eles devolvem essa assepsia social na forma de “tio” e “tia”. Todo mundo é tio e tia. Assim ninguém tem nome, ninguém tem identidade, ninguém tem existência ou mesmo significado.

Essa relação muda um pouco no Fluxo. O chamamento de Pai e Mãe remete também ao cuidado, ao zelo, ao acolhimento e à segurança do núcleo familiar hipotético e até desejado um dia. De um jeito distorcido, já que as definições e contornos dali são um tanto esfumaçadas, no fluxo, até a droga ocupa um lugar de mãe. Nas suas multifaces, a droga assume esse papel maternal do acalanto, de acolhimento, de proteção e aconchego.

Sim, já é possível perceber a complexidade que é o Fluxo, mesmo que ainda estejamos divagando por suas margens e por nossas concepções de vida. Suas profundezas? Elas existem, mas só para os fortes. Em geral, invisibilizamos a dor dessas existências, e nos contentamos com nossa figura caricatural de tios e tias. Embalados pelo crack, aquecidos pela cachaça, relaxados pela maconha, impulsionados pela cocaína, usuários permanecem ativos, 24h-48hs no Fluxo.

Seu local geográfico hoje é a Rua Dino Bueno, na Luz, bem ao lado da suntuosa Sala São Paulo. Ironicamente, Dino Bueno era um advogado e juiz paulistano do início do século 20. Infelizmente, justiça é o que menos se vê por essa rua.

São muitas as instituições que atuam nesse território. De igrejas à ONGs, as quais assumem o papel de maternagem e cuidados, mas também existe o papel do limite seja através da conversa e presença constante nas ruas, seja através da opressão, hostilização ou mesmo violência. A presença ostensiva da polícia nesse território Luz, reflete bem nosso país que nasceu e vive em um patriarcado sustentado pela força e o controle dos miseráveis. Uma relação secular, onde a presença pública se deu pela opressão, esse “limite pai” da polícia, é hostil, mas os preserva a vida e se concretiza na região em mais uma incoerência e dicotomia. A Cracolândia é cercada pelo quartel da Rota (na Av. Tiradentes), DENARC ( na Rua Brigadeiro Tobias), COPOM ( na Rua Ribeiro de Lima) e GCM (próximo à estação da Luz), criando assim, uma verdadeira morte vigiada, muito diferente do que se vive do lado de lá da ponte, onde as identidades desaparecem ou são descartáveis.

Mas a Cracolândia não é formada apenas por pessoas que fazem uso e abuso de drogas. Afinal de contas, estamos falando de uma rua em um dos bairros mais antigos de São Paulo. Poderia escrever linhas e linhas sobre seu passado glorioso junto à Estação da Luz e a São Paulo Railway Company ligando o porto de Santos com o interior de São Paulo, sobre os cafeicultores que vieram para a cidade, os casarões e palacetes dos barões do café, o processo de deterioração do bairro, o projeto Nova Luz, enfim, vou dar preferência às pessoas neste texto. Coisa não sofre, não sente dor, frio, fome, saudade. Por mais bela que seja toda essa arquitetura e história, a estação a luz já queimou mais de uma vez, os casarões perderam o pedantismo ao se tornarem barulhentos cortiços apinhados de famílias e o café só é encontrado nos botecos por 1 real. Mas isso não quer dizer que a região e seus moradores, trabalhadores e usuários não tenham café no bule. Muito pelo contrário. Nessa região, faz morada um potencial imenso. Só precisa olhar pelo ângulo certo.

O Cheiro do FluxoSer e estar na rua; a arte do encontro através do espelho

Existem certas experiências na vida que não cabem apenas no sentido da observação. O olhar distante e protegido não dá conta de absorver a complexidade deste cantinho de Luz onde se aloja o Fluxo. O olhar através das grandes mídias, muito menos, pois recorta, coisifica e distorce as muitas pessoas e histórias que por ali correm. Não tem cheiro, calor, gosto, toque. Para conhecer o Fluxo é imprescindível viver o Fluxo. Só que para viver e enxergar o Fluxo, exige um certo preparo consigo mesmo, uma vez que na relação direta com essas pessoas, os conceitos, valores, atitudes, moral, afeto, julgamentos, perspectivas podem ser refletidos ou repelidos/refratados.

Ninguém sai ileso de um mergulho no Fluxo. Aliás, basta sair da estação Luz do metrô para sentir o cheiro de Luz. Uma mistura de cheiros de comida, sujeira, suor, desinfetante, merda, maconha, mijo, poluição, crack, cachorro. Os cheiros flutuam em um balé com as ondas sonoras dos carros, dos gritos, das sirenes, das cantorias, das conversas na calçada, dos isqueiros “bic” e dos caminhões. No coração da Luz, perfumes e a música clássica ficam hermeticamente fechados em fortalezas de paredes grossas e seguranças particulares da suntuosa sala São Paulo em uma dimensão própria, alheia à realidade.

Essa é a primeira etapa para conhecer de verdade a Cracolândia, ou seja, o Fluxo. Transcender o próprio corpo condicionado. Superar a ânsia e enjoos pra simplesmente, estar com as pessoas. Começa o trabalho de desconstrução de si mesmo. Parece simples, mas não é. Somos fruto de um processo de construção muito bem sedimentado tanto no corpo como na mente e em muitos, na alma também. Na maioria das vezes, nossos princípios e valores refletem uma família, uma sociedade que não considera parte de si a população de rua por exemplo. Ledo engano. De um jeito ou de outro, elas emergem na vida de todos. Sem exceção. Como um herpes que espera à espreita de um metabolismo indefeso para um bote final. Mas também pode ser como tirar uma farpa da mão que se infecciona, num trabalho delicado e maternal com uma agulha, que aos poucos, abre caminho na pele que agoniza e nos livra desse tormento. Pena que essa farpa é criada por nós mesmos, a própria sociedade. E continuamos a ser um corpo social. Mas não precisa ser assim, como nos ensina convivência cotidiana.

A diversidade e a intensidade extrema, tornam o Fluxo denso e bastante pesado. São muitas pessoas muito ativas, outras muitas sedadas, pessoas de diferentes identidades, diferentes idades, etnias, vazios, regiões, histórias, propósitos, traumas, relações, perdas enfim, não tem fim. Tudo isso se concentra de tal maneira, que um planeta inteiro se torna um grão de areia, uma pequenina pedra. Tal concentração de matéria faz Kronos se curvar, dobrando-se em si, para lá, do outro lado, apresentar um saudoso mundo novo, na dobrada do espaço e tempo que escorrem na dança de um buraco negro também conhecido como Fluxo. Só os fortes surfam nessas ondas nebulosas. Tenham certeza disso.

Mas essa força não está apenas nos músculos e tamanho. Aliás, um dos maiores pesos a se carregar no Fluxo não é material. Assim como a pedra que se queima e vai pra mente, tudo e todos ali são efêmeros. Consomem e são consumidos. Do corpo até a alma. Lidar com isso não é uma tarefa fácil. Andar ou estar lá, implica em desintegrar-se, ceder partes de si. De uma maneira ou de outra. Assim como no buraco negro tem um campo gravitacional com uma força descomunal que não perdoa nem a luz, pois até mesmo as micropartículas da luz são tragadas para uma outra dimensão, a o território Luz também engole tudo. Esse consumo desenfreado transcende a fissura da pedra de crack, já que se trata de uma condensação de vazios, misérias, de tristezas, de amores partidos, de vergonhas, de famílias abandonadas. Sobra apenas a família do Fluxo, onde todos são iguais, todos se identificam.

Por isso, quem não faz parte dessa família e queira por algum motivo estar nesse território, esteja preparado para ser dilacerado. Um dilaceramento existencial principalmente, já que o material, o corporal, ali no Fluxo, não tem muita importância. Por isso ele míngua, seca, perde suas cores e se torna invisível. Para uma sociedade que hipervaloriza o estético, este acaba por se perder, desintegrar, dragado pelo Fluxo em um redemoinho e pulverizado nas suas profundezas. Dessa maneira, o Fluxo é visto pelo senso comum como uma massa que forma uma literal vitrine aviltante e agressiva. Muito embora o olhar seja a percepção que menos compreenda o Fluxo. O literal e suas normas (sempre muito cultas) e julgamentos prévios, não dão conta da poesia, da semântica, que flui por entre todas aquelas pessoas que transbordam em sentimentos, histórias e afeto.

Como lidar com essa complexidade toda? Não há receita. Assim como a dor é de quem a tem, assim como a construção de mundo é de quem o faz, com as relações não é diferente. Cada um escolhe e constrói a sua. Ela pode ser rasa e asséptica, ou profunda e rica. No caso do Fluxo então, para enxergar sua profundidade e riqueza, tem seu preço imaterial e de desapego de si.

Digo imaterial, pelo seguinte motivo quase dialético. O contato e o diálogo podem sim se dar única e exclusivamente através da matéria. Mas será apenas isso. A sede insaciável do fluxo é um reflexo da sua falta. Falta tudo no Fluxo, é um encontro de invisíveis que ganham vida e forma numa dimensão própria. Ao mesmo tempo, há uma ilusão de que não falta nada. Dessa maneira, nessa relação superficialmente material, os verbos de ação real, ou relação, ficam reduzidos em Fumar, Usar, Beber, Trocar, Roubar (para alguns poucos já que as leis da rua e do Fluxo são bastante severas, mas retomaremos esse assunto adiante), mas principalmente, o Pedir. Esse último com certo destaque, pois remete a todos aqueles que não são da família do Fluxo, mas estrangeiros, os corpos estranhos, que baixam por ali e logo são localizados como um foco do pedir. Ninguém escapa disso, desde os moradores da região até os que trabalham e passam nas imediações. “Me dá um cigarro? ”, “Dá uma moeda? ”, “Me dá um Lanche”, e o mais incrível, são todas necessidades imediatas, já que ninguém pede uma casa, uma saúde, uma segurança ou um trabalho. Como se esses direitos não fizessem parte de suas vidas. Ninguém quer saber ou consegue querer saber preço imaterial, recai sobre nós, aqueles que são pedidos. É um constante bombardear de pedidos.

Assim, cabe à cada um, sua própria escolha. Dar ou não. Lembrando que se trata de uma necessidade insaciável, a probabilidade de ficar rotulado apenas como uma pessoa que dá coisas é bastante grande, por ser uma relação cômoda e satisfatória para a circunstância e efemeridade do encontro. Vale a reflexão que muitas vezes, o dar, também significa se livrar daquela pessoa que está pedindo, pois fica restrito apenas à materialidade da relação, o cigarro, a comida, o agasalho. Não estou dizendo que não se deva dar coisas para as pessoas usuárias de drogas ou não, que fazem das ruas a sua moradia e sobrevivência, mas que a relação não fique apenas no material. Dê, mas também converse, seja gentil, atencioso e afetivo. Dê alimento para o corpo e para alma. Na maioria das vezes, esta última é a carência mais importante.

É como alucinações, aqueles que ficaram invisíveis por nós, se unem em gritos e apelos para existirem, nem que seja por um segundo, naquele momento do pedir, o pedido é a conexão com o lado de cá. Esse fluxo soa como vozes internas em cada um de nós e desperta vivencias próprias e particulares, é nesse momento em que nos desconstruímos para perceber quem são aquelas vozes e onde se conectam com nossa experiência, é uma troca única. Para alguns insuportável, para outros, desafiadora.

Tudo bem que no contexto histórico de nosso país, fomos criados em um caldo colonialista, escravagista, cristão, pecador, cheio de culpas, assistencialista, que fazem dessa escolha de dar ou não, um verdadeiro dilema. Justamente por um grande motivo, pois quando alguém na rua pede um trocado ou qualquer outra coisa, somos arremessados a nós mesmos. Quem sou eu? Quais os meus valores e princípios? Quais as minhas crenças? Como me coloco no mundo? Como me relaciono com as pessoas? Aquele que pede, torna-se nosso espelho, refletindo inversamente a imagem que somos. Só que a imagem do espelho não interage e nem se relaciona. Na rua, de frente à pessoa com suas fragilidades expostas, não tem saída. Ou você se livra assumindo sua vida confortável e material, ou você se doa, permitindo mostrar que você também tem fragilidades, só que não tão expostas e explícitas. Esse é um grande valor que todos os cidadãos de uma cidade como São Paulo deveriam de ter. Humanidade.

Estar na rua, seja como um transeunte seja trabalhando, não significa ser da rua. Nunca será. Mas também não significa que a rua não faz parte de nós. Mais do que isso, a rua e todos que lá estão e vivem, ou somos parte dela, ou somos corpos estranhos, e nesse viver coletivo tem muito a nos ensinar, a nos tornar pessoas melhores. Pois na rua, temos que nos livrar de todas as armaduras, escudos e espadas que construímos durante a vida inteira e assim, nos forçando a enxergar as pessoas como elas estão, ou simplesmente, como elas são. A outra opção é a escolha pela cegueira hipócrita. É um processo complicado e exige um certo empenho, pois se trata de uma desconstrução do seu próprio ser e estar, que nos permite alcançar um mundo que numa sociedade como a atual, não faz a menor ideia de sua existência. Um mundo onde pessoas são o que elas são, ou foram. E são belíssimas histórias de vida que infelizmente, ficam caladas ou destroçadas em momentos de fragilidade, de exclusão, de abuso de drogas, de dores, em manchetes de jornais. A rua é a arena pública e coletiva.

Assim, se quiser realmente conhecer o Fluxo e as pessoas que ali estão, tem que rolar um certo desapego mesmo. No Fluxo ou com qualquer outro morador de rua, temos que ir de peito aberto, caso contrário, essa desconstrução do “eu” se torna dolorida e enferma. Adoece mesmo, não tem jeito. Por isso, que no final das contas, é muito fácil estranhar, repelir, julgar, classificar e ter medo de pessoas que simplesmente, não se conhece. É duro, mas infelizmente, a maior parte da sociedade pensa e age assim, ou até mesmo pior que isso.

É preciso despir-se de si, desnudar-se para encontrar consigo e se abrir para uma conexão própria que permitirá entender aquele rosto, num primeiro momento sem contorno, mas que aos poucos desvela historias e vida, só assim é possível uma experiência genuinamente educativa.

 A densa diversidade e organização própria do Fluxo

”O pensamento africano procura sempre a explicação da totalidade como um conjunto indivisível complexo e de conexões múltiplas. A comunidade, sua terra e seu povo constituem a base da identidade e da construção das sociedades africanas. A força vital e a palavra são dois conceitos que explicam os dinamismos às mudanças nas sociedades africanas. A força vital é a energia a ser acumulada para a continuidade e para a mudança. A palavra é cultuada como conhecimento e elemento de criação. A palavra precisa ser pronunciada com cuidado dado o seu poder de criação. A palavra tem um sentido rítmico na sua expressão. Para os africanos também os tambores falam. Estas bases conceituais do pensamento africano se refletem por todas as expressões da cultura. ” [1]

Assim como a força e totalidade da África foi dilacerada por cortantes linhas fronteiriças europeias e dizimada pelo maior e mais violento êxodo forçado da história humana, o estar na Cracolândia repete essa história, um sequestro das identidades. Numa atitude de resistência e resiliência, o Fluxo mantém perene à filosofia cíclica e oral africana, incluindo suas conexões múltiplas e a palavra através do encontro. A palavra da voz junto ao corpo, sem representações ou intermediações orgânicas ou inorgânicas, valorizando a pessoa que fala e a pessoa que ouve. Acrescente substâncias estimulantes, depressoras e perturbadoras, ou qualquer outra classificação que desejar, já dentro de um contexto de fragilidade e carência e então, temos a verborragia avassaladora do Fluxo.

Por sua profundidade, o Fluxo tem suas águas turvas, escuras, mas sua superfície dérmica é predominantemente negra. Não digo que não existam outras etnias, pois como já foi dito aqui, o Fluxo é diverso, sem escolher credo, raça, ideologia, classe econômica, nada. Todos aqueles que possuem um vazio interior, um tormento dolorido, um pensamento queimado, um desprezo cortante, fluem por esse leito, que acolhe e envolve em abraços melindrados. A Cracolândia revela as desigualdades da nossa desvairada metrópole e evidencia o racismo, pela privação de direitos do povo negro, confinados na droga como única alternativa ou rito de passagem viáveis antes do extermínio.

Ultrapassada a barreira pessoal, ideológica e material, é possível orbitar o Fluxo, fluir por suas correntes, mesmo que o zumbi ali, seja você. Com o tempo e a presença cotidiana, embebidos de muito afeto, o medo e estranhamentos são deixados de lado e então, deixamos de ser zumbis, para nos tornar família. A partir daí, entramos em contato com a densa e complexa totalidade e suas múltiplas conexões do Fluxo, tornamo-nos parte.

Cheiro de LuzNa cultura africana a oralidade é um processo de construção coletiva e afirmação das identidades mais profundas dos grupos. Essa oralidade é muito marcante no fluxo, uma verborragia aparente, fala em cascata, barulhenta, mas cheia de conteúdo ocultos. A fala que ensina e educa, traz o patrimônio que está tatuado nos corpos e mentes das pessoas onde quer que elas tenham ido e o que quer que tenham deixado para traz. Assim transcendem o espaço e tempo no ritmo do juntar de letras, palavras e frases e dessa maneira, transmitido em ondas para o outro ser, fazendo desse processo individual e coletivo, um legítimo processo de juntar os estilhaços de si mesmo em uma constante transformação e reconstrução.

No único espaço onde as pessoas podem ser quem são, o Fluxo acolhe em redemoinhos e aspiras, engolindo ou projetando o “eu” mais profundo. A latência constante, a tensão alternante, cria uma espécie de campo magnético, que por sua vez, promove o agrupamento e coletividade. Corpos unidos e também consumidos, bailam a dança frenética da chama que derrete estruturas rígidas e doloridas. O coro de vozes em discursos desenfreados, coroam o rito como uma legítima roda africana;

“Nessas rodas, encontraram-se três experiências profundas da continente africano: o canto, a música e a dança. A onda que embalou essas experiências foi a oralidade, fator fundamental da compreensão do universo negro-africano. Para muitos dos povos africanos, a oralidade não é a incapacidade de produzir textos grafados, como se acreditou e se difundiu no ocidente. O africano tem uma ligação intrínseca com a oralidade. Ela é um fio permanente que o conecta com seus ancestrais, com sua história e com sua identidade mais profunda. ”[2]

Por isso a linguagem corporal no Fluxo é latente, bem como a arte e a cultura popular. O olhar, o toque, o tom de voz são fatores importantíssimos, assim como a espontaneidade e sinceridade. Na fragilidade, quando se está em carne viva, qualquer ventinho pode provocar a dor, daí o cuidado, o acolhimento e para isso, nada melhor que um abraço, um aperto de mão, um salve. É quando os corpos se entendem por eles mesmos, sem mediações ordenadas e interpretativas, apenas percepções. Por isso a música também é uma linguagem direta com o Fluxo. O sacolejar do corpo na cadência musical, sentir o som vibrar no peito, faz com que corpos e mentes sejam transportados para uma memória afetiva ancestral e transcendental, o conectando a outros mundos e a outros tempos, permitindo assim, uma trégua na luta cotidiana pela sobrevivência.

Junto com o corpo, vem a força, o bruto, o qual se materializa como mais um elemento deste complexo ecossistema que é o Fluxo. Assim como a violência cotidiana, que também é mais um elemento desse ecossistema. Não é uma banalização da violência, pois é algo muito grave, ainda mais num local onde a maioria dos direitos humanos mais básicos são violados. Mas não é só isso! Por traz da sujeira, fumaça e fuligem, existem pessoas maravilhosas, com potenciais imenso e histórias incríveis.

Por exemplo, existe uma economia própria da Cracolândia e não é só da bandidagem, tráfico ou esquema do PCC. Na dificuldade, são criados vários subterfúgios para contornar as adversidades. Um corote de cachaça, que é vendido nos mercados locais por dois reais, tem seu valor multiplicado por 10 quando é vendido em doses. O cigarro segue pro mesmo caminho. O maço de cigarros Eight, a marca mais barata, é vendido o maço e também unitários, ou até mesmo tragadas. O escambo e troca são comuns, só que agora, na sua versão de feiras do rolo. Uma lona é estendida no chão e sapatos, roupas, lustres, brinquedos, dentre infindáveis objetos ficam expostos para as negociações. Na miséria, também gira muito dinheiro.

E o que que eu tenho a ver com isso?

Claro que é essencial ter uma disponibilidade e um forte motivo para passar por este árduo processo individual e coletivo. Infelizmente, uma cultura pública e cidadã ainda é pouco cultivada na nossa sociedade atual. Ainda impera o traiçoeiro pensamento do cada um por si, que nada mais é do que o mero reflexo de uma sociedade egoísta e auto centrada. Os que ficam à margem, não existem.

No meu caso, quis fazer parte da linha de frente nessa luta por direitos e igualdade social, sinto-me pertencer à rua, sou parte dela e de suas incongruências e encruzilhadas. Optei por fazer da minha vida profissional um ato constante de militância, uma ferramenta de intervenção e transformação de uma sociedade que adoece, seja por se isolar do corpo social como um todo, seja por negar o todo deste mesmo corpo, eu optei por me incomodar, indignar ao ver o fluxo e construir uma outra entrada nele, na esperança e crença de que outras pontes podem ser construídas para os processos de saída e superação de cada um que está mergulhado lá dentro. Mas não precisa necessariamente ser um profissional da área social para ajudar neste delicado e intrincado processo de equalização social.

Aliás, um dos principais objetivos desse texto de fôlego é justamente possibilitar a reflexão por qualquer pessoa sobre si, sobre os outros e suas respectivas relações com as pessoas com quem convivem cotidianamente e também suas relações com pessoas que não fazem parte de sua rota cotidiana, muito embora continuem sendo um mesmo e único agrupamento social, que neste caso, trata-se de uma cidade de 13 milhões de habitantes (aliás, a população de rua faz parte desse volumoso número de habitantes). Todos são capazes de colaborar para uma sociedade melhor, basta criar novas possibilidades, novos “comos” e entender a importância de uma existência mais solidária, por menor que ela pareça ser.

Para isso, temos que deixar de lado o conforto satisfatório de nossos cantinhos de mundo individuais e se entender como membro de uma sociedade, sem uma única exceção sequer, sem categorizar cidadanias. Cidadãos não são apenas aqueles que tem uma casa, 3 refeições ao dia, um trabalho, uma família, um carro do ano, uma viagem pra Disneylândia e pouco tempo para ir ao zoológico dar pipocas aos macacos. Não é possível conviver com classificações de cidadania, exercícios de direitos parcelados, mendigados ou concedidos como favor a cidadãos de segunda categoria. Somos todos cidadãos só há uma categoria de gente numa sociedade democrática, a cidadã, sejam os afortunados com seus direitos garantidos, sejam os sofridos com seus direitos violados que resistem a invisibilização e descartabilidade cotidiana. À estes últimos, fica nossa parcela de responsabilidade nesse legado de desigualdades.

Dessa maneira, comece sua revolução individual, ainda que silenciosa ou particular. No próximo encontro com um morador de rua, ou se por algum motivo cair de paraquedas na Cracolândia, aquele cantinho de Luz que acolhe o Fluxo, permita-se superar o medo construído diuturnamente pelos padrões distorcidos da grande mídia. Permita-se enxergar a pessoa que está na sua frente. Busque conhece-la e ser reconhecido, converse e permita a entrega de si ao invés de uma moeda ou de um livramento que alivie.

Minha colocação parece banal ou leviana, chegaria a ser irresponsável para os riscos de segurança de uma sociedade criada sob o prisma do terror, parece fácil, parece simples, parece seguro e mágico, parece ingênua. Contudo, é apenas uma simples provocação para o exercício da empatia e alteridade, experiências capazes de romper com a avalanche do ódio que se espalha e infiltra em atitudes corriqueiras, em pequenas rejeições e recusas, em movimentos invisibilizantes, em reforços de ideários excludentes, na raiva e incômodo que uma pessoa, um andarilho causa quando fixa seus poucos pertences em nossas portas, no desespero de banir do convívio aqueles que estão fora da curva, na centrífuga das esquinas, mergulhados na droga.

É um convite a um olhar mais detido, capaz de transformar as atitudes num encontro que, por 1 segundo, seja capaz de lembrar aquele rosto em fragmentos que ele é gente, respira, tem história e existe. Um olhar e uma atitude capaz de nos transpor à condição de corpo estranho para membro da Cidade, passa-se, imediatamente, a ser parte do mundo, como se uma ponte ligasse o mundo real aquele que invisibilizamos por hábito ou por não saber ver e até mesmo, sentir.

“Ricardo Paes de Carvalho é jornalista e educador de rua e propõe o resgate da grande reportagem para promover a educação através da comunicação e a transformação do leitor através de uma leitura crítica e reflexiva”

Cheiro de Luz Cheiro de Luz IMG-20160802-WA0013 (1) Cheiro de Luz Cheiro de Luz

 

[1] CUNHA JUNIOR , HENRIQUE – História e Cultura Africana e Afrodescendente: Pesquisa

sobre os Conceitos, Métodos e Conteúdos, Programa de pós-graduação em Educação Brasileira, Universidade Federal do Ceará

[2]    por Juarez Tadeu de Paula Xavier in http://zagaiaemrevista.com.br/rodas-sagradas-da-tradicao-africana-espacos-de-re-construcao-das-identidades-profundas-3/ _ acesso em 08/08/2016

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