Como é ser uma vítima de abuso sexual – Uma resposta ao texto de experiência sobre ter uma relação sexual com uma vítima de abuso

Como é ser uma vítima de abuso sexual – Uma resposta ao texto de experiência sobre ter uma relação sexual com uma vítima de abuso

Eu li o texto do cara que transou com uma menina vítima de estupro; e acho que dessa vez eu confesso, não aguentei. Na minha infância, fui vítima de abuso sexual (por que pela legislação brasileira, homem não pode ser estuprado). E NUNCA, nunca me sinto representado por nada que leio sobre o assunto. Fico…

Eu li o texto do cara que transou com uma menina vítima de estupro; e acho que dessa vez eu confesso, não aguentei. Na minha infância, fui vítima de abuso sexual (por que pela legislação brasileira, homem não pode ser estuprado). E NUNCA, nunca me sinto representado por nada que leio sobre o assunto.

Fico feliz que o rapaz tenha sido tão acolhedor com a menina, que tenha sido um momento lindo com música alternativa e mar ajudando. Mas esse texto não ajuda nada, nem ninguém; talvez somente o rapaz, talvez.

A menina, talvez, tenha se sentido violada mais uma vez; toda a ajuda e tesão carinhoso que o cara teve por ela pode ter ido pelo ralo. Se fosse o meu caso, se fosse ao contrário, eu teria me sentido assim; e de fato me senti assim lendo o texto.

Cultura do Estupro

Tem, mesmo que isolado, abrigo no meio de tudo – Foto Marco Carlucci

Antes de tudo, acho que vale aqui uma explicação melhor e mais profunda do que estou falando. Eu tinha 8 anos, estava na piscina com dois garotos mais velhos que eu; um devia ter uns 13 anos e outro uns 10, irmãos (provavelmente vítimas de abuso eles mesmos).

Estávamos fazendo brincadeiras na piscina, quando para continuar com a brincadeira que eu queria, eles exigiram que antes a gente tinha que ir para sauna. Não entendi, lembro de resistir a ideia, mas fui assim mesmo. Lá eles me fizeram ficar pelado junto com eles e os dois fizeram em intervalos, sexo anal comigo. Lembro claramente de estar de quatro no banco da sauna e o mais velho falando “Você sabe que homem com homem não faz filho né?” e de eu pensando “Porque faria filho?” e com vergonha de não saber perguntar disse que sim, sabia.

Passei anos e anos tentando entender o fato. Quando descobri o que tinha acontecido, de fato, no meio da adolescência, sofri muito… Pois homens não me atraem, mas como eu tinha ficado com o pênis ereto? Era homossexual e não sabia?

A única vez que falei com alguém mais velho sobre isso, recebi uma resposta que até agora me assombra: “No interior fazem isso o tempo todo, chama troca-troca. Não é nada demais.” A parte boa, foi que essa resposta pelo menos aliviou a minha alma da coisa mais premente no momento: se eu era ou não homossexual; pois com mulheres não obtinha muita sorte nessa época. Provavelmente porque a minha sexualidade havia sido imposta por um outro alguém. Não era minha, eu não sabia o que era sexo e já havia feito ele.

E essa é a minha grandíssissima crítica ao texto. De quem é a sexualidade nessa história? É do rapaz, ou da menina? Então porque cargas d’água eu estou lendo o texto do cara? Porque raios as pessoas estão compartilhando como uma obra de arte esse momento ‘libertador’ de outrem? Esse cara não sabe, mas ele assim como você que acha o texto “lindo e essencial” fazem parte da “cultura do estupro”. Como assim!?

O estupro (no meu caso, violência sexual – legislação burra, vai entender) é um ato que te tira domínio sobre a própria sexualidade. É isso o que define ele. É a impossibilidade que o perpetrador te impõe de você decidir o que quer. Seja ele pela força ou pela inocência, ele te rouba o que é essencial na sexualidade: a sua vontade. Ele pega um momento íntimo e retira toda a intimidade, toda cumplicidade de duas vontades e transforma em algo externo. Assim como o texto do rapaz, assim como você compartilhando o texto que termina com um comentário besta sobre como o homem e a mulher se relacionam.

Quer mudar a cultura do estupro, divulgue, fale que a sexualidade é sua não do outro. Dê poder às mulheres e aos homens também de entender que sexualidade não é algo de mão única, mas de 2 vias. Falemos sobre sexo com as crianças. Falemos sobre violência sexual também. E SEM JULGAMENTOS.

Porque sem julgamentos? Eu tenho algumas pessoas na minha vida que sabem desse acontecido, a maioria família e amigos. Algumas ex-amantes. E delas, que eu esperava mais entendimento e compaixão; mas o máximo que recebi foi algo do tipo: “eu não estou preparada para lidar com isso”. Imagina como isso atrapalhou o meu desenvolvimento sexual; a dificuldade de se relacionar, de ter domínio sobre a sua sexualidade e ainda ter junto com você uma pessoa que não sabe nem como reagir frente a isso e você ali tendo que desvelar os profundos da sua alma e encontrando uma parede.

Não adianta ficar batendo no fim da cultura do estupro como se isso fosse uma questão de política, de canetada. O que você faz para acabar com isso? Quais são as conversas com jovens que você tem sobre isso? Quais são as conversas sobre sexo que você tem com pessoas mais novas. Não é através de políticas, de textos no facebook (que serviram mais para pessoas reviverem traumas, e outras se sentirem bem por ter compartilhado ele; do que criar algum comportamento) e de gritos de guerra que esses dilemas pessoais vão acabar.

Cultura do Estupro

Dá pra reaver não só as penas e voar de novo. Foto Marco Carlucci

É sobre conversa sobre sexo. Sobre o que significa fazer sexo, o que significa sexualidade num nível pessoal, nada de besteira política aqui. Eu queria pessoas. Eu queria parceiras, pessoas que engajassem de maneira emotiva comigo. Mais empatia e menos política, todas elas beiravam o movimento feminista, se dizem contra o estupro; contra essa cultura, mas literalmente na hora H de enfrentar ela, não sabiam o que fazer.

Para acabar com a cultura do estupro, precisamos falar sobre estupro; e não alguém falando sobre o estupro do outro. Falar sobre o próprio estupro, não sobre o dos outros. E principalmente que é possível, mas difícil, ter uma vida sexual boa e plena depois disso. Não esquecendo também, que você pode encontrar uma pessoa que passou por isso.

Mas mais importante: é através de empatia que a gente reconquista as pessoas que passaram por isso. Não com texto de facebook sobre o que aconteceu com outras pessoas, e como através de um momento mágico eu me senti conectado com isso. Não amigos e amigas, vocês não se conectaram com isso. O estupro desconecta, não conecta. Conversas, ao vivo, olho no olho conectam. Menos solução política e mais solução humana conectam, isso é cultura de ‘desestupro’.

Isso é o que eu chamo de cultura do ‘desestupro’: falar com a sua amiga que tem umas história estranhas que nunca te contou direito, sentar com ela e dizer “se você precisar contar pra mim e contar comigo estou aqui”. Ajudar a reconhecer que há vida depois da violência e que ela não necessariamente precisa ser o tema da vida de ninguém.

Então depois (ou ao invés de) de compartilhar esse texto e/ou comentar, pense em ter uma melhor relação com sexo, em passar para os seus filhos que sexo é entre duas pessoas abertas umas para a outra. Que sexo é melhor quando compartilhado, que ele pode e deve ser conversado. E que se der errado, se algo muito ruim acontecer, que ela terá amigos e família que vão ajuda-la (ou lo) a sair do buraco e viver uma vida plena e feliz.

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