Num mundo em que não se lê – o papel da escola

Num mundo em que não se lê – o papel da escola

A internet foi povoada pelo debate da proposta da nova Lei de Diretrizes de Base da educação brasileira. O que mais chamou a atenção nas redes sociais foi o fato de o governo ter tornado optativas as disciplinas de filosofia, artes e sociologia no ensino médio. Perguntaram minha opinião sobre o assunto mais de uma vez,…

A internet foi povoada pelo debate da proposta da nova Lei de Diretrizes de Base da educação brasileira. O que mais chamou a atenção nas redes sociais foi o fato de o governo ter tornado optativas as disciplinas de filosofia, artes e sociologia no ensino médio.

Perguntaram minha opinião sobre o assunto mais de uma vez, e posso dizer com um pouquinho de pessimismo (só um pouquinho) que não vai mudar nada. E desse texto você provavelmente só irá registrar isso, a não ser que seja dos poucos que vão lê-lo até o final. Isto não é culpa apenas da escola: faz parte do nosso tempo.

A educação formal precisa se reinventar, rever seu papel na sociedade, seu sentido. Se antes ela se propunha a “formar o cidadão” (um conceito estranho, mas muito alardeado por professores da velha guarda), hoje o que interessa é a performance orientada ao sucesso social. Se você estudar terá mais chances de ser alguém na vida. Obviamente este é um discurso de exceção, já que as variáveis do sucesso são enormes, e a escolaridade e/ou educação da pessoa são uma pequena parte disto.

mobilidade socialPor quê?

No Brasil vivemos um sistema velado de castas, mesmo que muitas retóricas o neguem. Aqui o que vale é a fidalguia, “filho de alguém”. A mobilidade social é muito, muito restrita. O discurso ficcional de self made man (Sílvio Santos, que saiu do nada e é bilionário etc etc), as palestras motivacionais para empreendedores e profissionais (basta querer de verdade que as coisas começam a acontecer na sua vida), o marketing multi-nível e suas infinitas reuniões de negócios… Tudo isso faz parte de uma necessidade que temos de que o sucesso efetivamente aconteça. Queremos isto tanto quanto queremos que as histórias de amor aconteçam perfeitas, como num sonho. Por isso gostamos de pensar nelas, da mesma maneira que torcemos pelo mocinho nos filmes e nos sentimos frustrados quando o casal romântico não termina junto no final da trama. Quando dá errado e as coisas descambam, a gente chama de “filme de arte” ou “filme europeu”…

frustracao

Na verdade não sabemos lidar com a frustração. Nossa sociedade é pautada pela negação da morte, e a frustração nada mais é que a morte da realização esperada. Outro signo dos tempos: a infantilização do comportamento e dos desejos. Conheço um monte de adultos que se comportam como meu filho de 5 anos. “Quero porque quero, e agora.”

Como “formar um cidadão” sem falar de frustração? Como preparar o “caminho do sucesso” sem falar sobre o fracasso? Não há disciplina na escola que trate especificamente deste tema. Ao contrário, o fracasso acontece apenas e exclusivamente no método, no processo, no momento em que o aluno não se adapta a estes discursos. A aplicação das avaliações é a grande palmatória de fracasso. Você fracassa quando não se adapta ao discurso, e o único caminho para o sucesso será ser submetido novamente ao mesmo processo, até realizar o que o discurso educacional propõe.

fracasso1Se na vida o sucesso é uma variável, o fracasso é uma constante. Somos estimulados a delirar nas possibilidades de sucesso, mas não somos treinados para lidar com o fracasso, que sempre acontecerá. Na prática, é uma série infinita de fracassos e frustrações. E não estou sendo deprê, nada disto. Tente fazer um bolo, uma receita que nunca fez. Muito provavelmente você vai demorar para conseguir acertar o ponto. Praticar é de certa maneira fracassar sistematicamente.

O fracasso e a frustração se tornam então um desvio de um sonho (que prefiro chamar de delírio), um mau passo. Se fracassar é impensável, como atingir o sucesso? Se errar na prova é inaceitável, como acertar então?

Daí criam-se inúmeras outras oportunidades de melhorar a performance da busca pelo sucesso, mas não são investigadas as causas do fracasso. Falar sobre isto é tabu em instituições educacionais. Não descobrimos onde erramos, apenas tentamos novamente através de outras ferramentas que nos permitam obter o sucesso que nos foi vendido como meta, mas sem termos treinado os passos do processo para atingi-lo.

relevanciaInformação e Relevância

Nos anos 1990 circulou uma pesquisa sobre o impacto do volume de informação a que estamos expostos diariamente. De acordo com ela, um adulto urbano seria acessado por aproximadamente 2.300 informações por dia. Provavelmente este número aumentou, acho difícil que tenha diminuído.

Isto coloca o desafio da relevância da informação. Sem relevância ela rapidamente vai para o armazenamento de memória recente de nosso cérebro e é descartada no máximo em 72 horas.

Descartar é uma coisa meio óbvia, já que não consideramos relevante lembrar da cor do sapato do porteiro do consultório do dentista. Só coisas relevantes têm o potencial de serem lembradas.

Aumentar o volume de informação sempre parece sedutor. Nossos alunos precisam de cada vez mais informação, ou muita gente acha que é isto que falta.

(Note que nem estou encostando na palavra conhecimento, ok?)

Mas, para ser armazenada na memória,, a informação precisa de outro componente: vínculo emocional. Pelo menos é o que a maioria expressiva das pesquisas nacionais e internacionais dizem.

Talvez nos lembraremos com detalhes da cor do sapato do porteiro se no dia em que formos ao consultório do dentista aconteça uma explosão no prédio. O impacto emocional talvez nos faça reter cada detalhe daquele momento.

Muito provavelmente a questão emocional fortalece o vínculo com determinadas disciplinas pelo fato de gostarmos de um determinado professor. Mas e as outras informações entediantes que a escola gera? E as disciplinas ministradas por professores com pouca empatia? E os conteúdos desconectados da realidade do aluno, cujo objetivo apenas seria “passar no vestibular”?

A resposta tradicional é: precisamos de professores que façam com que esta informação irrelevante e sem sentido se torne agradável e que os alunos produzam resultados positivos nas avaliações externas. Tudo tem de ser agradável – se o aluno se sentir frustrado, a educação está caminhando para o fracasso.

Assim, a escola, movida pelo sucesso, define uma ideologia de performance e a vende para os pais e os alunos. E cabe ao professor gerar performance no processo e transformar um lodaçal de informação em vinho de conhecimento. É um ciclo perverso e disfuncional, mas muitos ambientes educacionais se movem desta maneira. Na falta de um verdadeiro sentido para a educação, nos apegamos ao processo, como se melhorando o processo surgisse algum resultado disto. Na verdade apenas alimentamos o processo, o cachorro correndo atrás do rabo. Maior ou menor volume de informação não tornará relevante o conteúdo ao qual estamos expostos.

Um alinhamento de sentido do processo educacional entre alunos, sociedade, instituições e profissionais talvez fosse mais eficaz, já que no momento estas entidades estão alienadas, cada uma fazendo uma coisa, só conectadas pelo mesmo empenho em gerar performance no processo educacional.

Lembrando Baudrillard, nossa sociedade adquiriu velocidade mas perdeu o sentido. Traduzindo: estamos com muita pressa, mas não sabemos aonde queremos chegar.

 

PS – Este post foi escrito a partir de um pequeno texto que li nas redes sociais, uma brincadeira que um amigo fez publicando que estava de viagem, agradecia a todos, sentiria saudades, e só no fim revelava que havia copiado o texto de outra pessoa, não era ele que iria viajar. Mas um monte de gente se demonstrava surpresa com a viagem e desejava boa sorte para ele. Não liam até o final.

 

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